
foto Mãe por IcaroNSilva (artigo: “Cadê meu abadá 2007?”)
Cadê meu abadá 2007? – É sábado… uma semana corrida que passa, e Nicodemos acorda pra arrumar o quarto (especialmente o guarda-roupas que tá uma bagunça). Separa as roupas pra lavar (aquelas largadas pelo cantos do quarto, em baixo da cama e em cima da cadeira…). Decide então, num gesto de extremo esforço metal, arrumar as gavetas! Camisas pra lá, cuecas pra cá… Quando então levanta a camisa do Náutico, comprada na esquina da Rosa e Silva no dia daquele clássico, e com isto outra lembraça o vem à mente. Tão rápido quanto a lembrança veio um grito: “Mãaaaaaae!!! Cadê meu abadá de 2007?”
Chega Dona Nena e diz: “…que foi meu filho?”
Nicodemos repete: “Oxi mãe, cadê meu abadá de 2007?”
Dona Nena reintera sua dúvida: “…que danado é Abadá, Menino?”
Ele reponde: “A camisa aquela do carnaval passado… Aquela roxa com uns negócio-meio-laranja, Mãe!”
Sorri Dona Nena e fala: “Aquela que parece camisa de deputado? Só que cheia de propaganda por todos os lados?”
Nicodemos bufa e fala: “Arfff…. Essa mesmo mãe! Faz mais de meses que eu guardei aqui… agora num tá mais”
Afirma a mãe: “meu filho… eu dei fim àquela camisa. Lembra da campanha pelos favelados das chuvas do mês passado? Pois bem, eu juntei um monte de roupa sua e perguntei se você ainda queria usar? E essa camisa fubentinha tava no meio delas. Você disse que podia dar tudinho… Vai ver que você num lembra porque estava no computador naquela hora.”
Nicodemos reconhece o episódio e se conforma: “…foi mesmo, né mãe? Eu to lembrado! Heita pitomba, agora já era! Putzzzzzz… Aquele carnaval foi massa…”. Na sua mente, Nicodemos lembra das cachaçadas que tomou… Dos 160 reais que deu pro bloco… Da cor fubenta que a camisa ficou depois de suar e lavar aquele tecido sintético de segunda… Lembra que ainda tá devendo a décima-segunda parcela do cartão de crédito univesitário dos gastos que teve com aquela farra.
Enquanto isto, do outro lado da cidade…
Mariazinha diz pra Bruninho: “Vamo pra-praia, Minino! Vista logo isso! Seu tio vai pegar sururu na maré baixa… Agente tem que levar outro balde pra ele. Aí domingo agente vai tirar um trocadinho na feira. Vinte-conto vai dar pra compra a comida da semana”
Bruninho, ainda com saudade da cama e de passinho curto, é tomado no colo de Mariazinha que sorridentemente se apressa à praia.
Como não pensar na diversidade de realidades dos universos paralelos do Recife narradas neste caso fictício… Quem sabe um dia Nicodemos conheça Bruninho e sua contribuição social seja maior que o sorbejo de suas farras… Quem sabe Bruninho não entre nas estatísticas de jovens delinquentes revoltados pelo contexto paupérrimo, e não compre sua arma na feira-do-troca aos 16… Quem sabe nada disso aconteça mas Nicodemos seja assaltado na jaqueira por um pivete armado… Só Deus sabe!
Plantamos e colhemos o veneno de nossa ignorância! Só espero que este artigo ajude-nos a repensar o contexto social dessa Metrópole, e quanta diferença faria os 160 reais desse abadá diante da inconsciência de amor ao próximo que temos.
Foto: ÍcaroNSilva
Artigo: Maxwell Fonseca

NOTA: Esta estória vinculada às foto acima é ficção. Qualquer coincidência de nomes e situações é mera coincidência. Os personagens da estórias são apenas ilustrativos.



Comentários Recentes