O ataque dos bonecos de barro

18 04 2008


Foto: artesanato pernambucano atribuido a DéboraCoutinho – sujeito a correção! (artigo por MaxwellFonseca)

O ataque dos bonecos de barro – O dia que exército salustiano desceu da Sé, em defesa à cultura pernabucana, choveu notícia pra todo é lado! Jornalistas e curiosos querendo subir, enquanto banners de merchandising eram derrubados ladeira-a-baixo, em Olinda. Propagandas impiedosamente arrancadas pelos bonecos revoltos, ao tempo que representantes comerciais amargavam ligações dos seus chefes: “Aonde está nossa sinalização?”. De celulares corporativos ouvia-se em extremo grito: “Faça alguma coisa senão lhe demito!!!”… e assim começa esta história de amor e ódio das nossas raízes (versus a pos-modernidade corporativa).

Era uma terça-feira aparentemente comum. Se não fosse as mil ligações de meus colegas me falando desse caos em Olinda Alta. Pois bem, corri com meu bloquinho de papel, à moda antiga, e fui à Sé. Como bom menino olindense (que conheçe cada buraco nas ladeiras), subi por trás do largo do Amparo – arrodiei pelo Colégio das Damas – estacionei perto da Ladeira de Misericórdia e fui andando até o largo da Sé pra ver se encontrava alguém pra entrevistar… Encontrei um disposto a falar, e antes d’eu me identificar disse ele ”…e se fosse contigo, mô’vey?” me perguntou um boneco de barro de roupinha azul ciano e uma rabeca na mão, “tu ia comê uma sugesta dessa?” e completou: “Apois, pelo que sei, o homem tomein já foi boneco de barro! E tú devia-de-tá do nosso lado, Seu-cába!”, afirmou com a vêemencia de um socialista revolucionário. Eu, com minha imparcialidade jornalística, preferi desconversar e com mais perguntas descobri que além deles existem centenas de outros bonecos vindo do interior apoiar o movimento… fiquei pasmo!

Desde a hora que enviei o e-mail desta história pro escritório da redação em Recife, tremeram os enlatados e as gravadoras sulistas, outdoors e carros de som choravam, programas de auditório suspenderam sua programação brega, até o vento! (ficou meio que parado, como quando está pra vir aquela chuvarada de dias).   

…continua

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Foto: Débora Coutinho
Artigo: Maxwell Fonseca
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Um estranho no ninho

9 04 2008


Foto Flores de Papel por Débora Coutinho (Artigo: “Um estrano no ninho” por Bianca Barbosa)

UM ESTRANHO NO NINHO - Contarei-lhes inicialmente um conto: ’Mariana cuidava de seu jardim e certa ocasião, olhando de sua janela, percebeu que lhe faltavam flores brancas. Decidiu comprar sementes de lírios brancos naquela tarde, só não sabia da surpresa que lhe esperava.

Chegou em casa, com sua sacola e sequer foi à sala. Pelo jardim ficou até quase noitinha. Preparou a terra e plantou suas sementes, satisfeita. Só depois que entrou para cuidar do jantar e dormir. Mariana  esperou meses e meses para ver suas belas flores brancas dentre as tantas as outras já existentes… A idéia da chegada de suas novas flores embalava seu coração com muita alegria. Duas palavras sempre lhe vinham aos pensamento sempre que pensa nisto: ”Ficará lindo!!!” . Contudo, seu jardim já era o mais apreciado de toda a região e tão belo que sua casa havia se tornado ponto turístico aos românticos e amantes da natureza. 

Depois de alguns meses, estavam lá os tantos lírios crescidos e fazendo mais belo todo canteiro. Uma flor porém destacava-se das outras, sua cor impressionava. Mariana havia comprado sementes de flores brancas, porém havia uma delas que floreceu na cor salmão. Prontamente ela foi até a janela, lugar onde costumava observar suas flores, e viu que aquela plantinha de cor singular fazia toda imensa diferença no jardim. Em vez de significar algo ruim, um inconveniente, não! Sua cor destacava se como a mais notável e ainda assim valorizava as demais por estarem ao seu redor em sua brancura… O Jardim de Mariana manteve-se com sua diversidade de cor, e seu belo lírio singular ainda inspira a muitos.’

Essa estória lembra o famoso conto infantil do patinho feio – diferente, rejeitado e deslocado. Na realidade, não apenas as compatibilidades fazem com que os amigos sejam amigos, com que os namorados casem… Cada um de nós tem suas especificidades e é esse o encanto da vida, ver que somos singulares, diferentes… Uns são gordinhos, outros magrinhos, uns altos ou baixinhos, enfim… Ainda assim amamos e somos amados. Assim como somos, Deus nos ama e recebe… O olhar dele não é tendencioso como o nosso e Ele não faz acepção de pessoas.

Certamente, o maior valor das pessoas não está na superficialidade, mas no que elas carregam no coração. Cultive um coração puro para que, assim como o lírio diferente, você se destaque como algo belo. Em meio às pessoas, sua cor e brilho resplandeça – como a ‘flor de Mariana’. Sua luz faça com que os outros sintam valorizados e também possam resplandecer.

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Artigo:  Bianca Barbosa
Foto: Débora Coutinho
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NOTA: Esta estória vinculada às foto acima é ficção. Qualquer coincidência de nomes e situações é mera coincidência. Os personagens da estórias são apenas ilustrativos.





Enquanto o Recife corre…

7 04 2008


Foto: Nas Ruas do Recife por ÍcaroNSilva (artigo por MaxwellFonseca)

Enquanto o Recife corre… – Protegendo-se do Sol do meio dia, Dona Neide vê passar o dia na esperança de encontrar transeuntes de bom coração, que ajudem e garantam o pão de sua casa. Como se sabe, o clima tropical de dias quentes de Recife não dá sopa. Na Ponte Duarte Coelho o calor é intenso, só a brisa do mar e a sombra abrandam o pesar. Para Neide essa ponte é ’seu ponto’. E também será ponto de partida desta estória metropolitana.

O cotidiano do Recife anda a sempre a cem por hora! Carros, pedestres, motos e bicicletas passando, e as calçadas como trilhas de formigas, e seus incontáveis seres freneticamente levados de lá pra cá. Gente estressada que mal vêem Dona Neide e sua sacola. O dia segue entre buzinas estridentes ao sinal verde, som de motores acelerando, ambulantes e seus tabuleiros móveis (evitando os fiscais da prefeitura), policiais e seus óculos escuros indo de uma esquina a outra, carros de som anunciando promoções… etc e etc. A cidade na velocidade da luz, e Neide na velocidade da sombra. Repousando com seu sotaque arrestado e de voz meio rouca: “Moço mi’ajude a interá o pão”…

Curioso, muita gente fala DE pessoas carentes. mas poucos efetivamente param pra falar COM eles. Suas histórias de vida são impressionantes. Essa é só mais uma entre tantas, mas apenas esta venceu o anonimato… “Eu vim de Condado”, diz Dona Neide - a ignorância da geografia interiorana ecoa: “Onde é isso?”, ela responde sem titubear – “Fica entre Itatinga, Nazaré da Mata e Aliança, mô’fio” e já emenda com a história do falecido marido dela. Ela conta que Biu veio pra Recife trabalhar na casa do filho do ex-prefeito, mas em ‘oitenta e dois’, depois da cheia, morreu de tuberculose e a deixou pra cuidar dos dois filhos. Hoje sozinha pensa em voltar pro interior, embalada entre incertezas, fala da falta de notícia da família e até dos crescidos filhos que foram-se pra São Paulo. Sem nada mais que lhe reste, senão sua sacola e poucas gramas de esperança, vive contando as moedas da boa-vontade os que passam… na correria do cotidiano.

Esse é apenas um conto metropolitano, mas a vida reserva centenas de personagens de carne e osso. Apesar desta estória aqui ser apenas ilustrativa. O cenário real merece uma reflexão intensa. Passamos insensíveis por dezenas de típicas Donas Neides na Veneza brasileira. Ouse conhecer tais histórias.

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Foto: ÍcaroNSilva
Artigo:Maxwell Fonseca

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NOTA: Esta estória vinculada às foto acima é ficção. Qualquer coincidência de nomes e situações é mera coincidência. Os personagens da estórias são apenas ilustrativos.





Mãe…

2 04 2008


foto Mãe por IcaroNSilva (artigo: “Cadê meu abadá 2007?”)

Cadê meu abadá 2007? – É sábado… uma semana corrida que passa, e Nicodemos acorda pra arrumar o quarto (especialmente o guarda-roupas que tá uma bagunça). Separa as roupas pra lavar (aquelas largadas pelo cantos do quarto, em baixo da cama e em cima da cadeira…). Decide então, num gesto de extremo esforço metal, arrumar as gavetas! Camisas pra lá, cuecas pra cá… Quando então levanta a camisa do Náutico, comprada na esquina da Rosa e Silva no dia daquele clássico, e com isto outra lembraça o vem à mente. Tão rápido quanto a lembrança veio um grito: “Mãaaaaaae!!! Cadê meu abadá de 2007?”

Chega Dona Nena e diz: “…que foi meu filho?”
Nicodemos repete: “Oxi mãe, cadê meu abadá de 2007?”
Dona Nena reintera sua dúvida: “…que danado é Abadá, Menino?”
Ele reponde: “A camisa aquela do carnaval passado… Aquela roxa com uns negócio-meio-laranja, Mãe!”
Sorri  Dona Nena e fala: “Aquela que parece camisa de deputado? Só que cheia de propaganda por todos os lados?”
Nicodemos bufa e fala: “Arfff…. Essa mesmo mãe! Faz mais de meses que eu guardei aqui… agora num tá mais”
Afirma a mãe: “meu filho… eu dei fim àquela camisa. Lembra da campanha pelos favelados das chuvas do mês passado? Pois bem, eu juntei um monte de roupa sua e perguntei se você ainda queria usar? E essa camisa fubentinha tava no meio delas. Você disse que podia dar tudinho… Vai ver que você num lembra porque estava no computador naquela hora.”
Nicodemos reconhece o episódio e se conforma: “…foi mesmo, né mãe? Eu to lembrado! Heita pitomba, agora já era! Putzzzzzz… Aquele carnaval foi massa…”. Na sua mente, Nicodemos lembra das cachaçadas que tomou… Dos 160 reais que deu pro bloco… Da cor fubenta que a camisa ficou depois de suar e lavar aquele tecido sintético de segunda… Lembra que ainda tá devendo a décima-segunda parcela do cartão de crédito univesitário dos gastos que teve com aquela farra.

Enquanto isto, do outro lado da cidade…

Mariazinha diz pra Bruninho: “Vamo pra-praia, Minino! Vista logo isso! Seu tio vai pegar sururu na maré baixa… Agente tem que levar outro balde pra ele. Aí domingo agente vai tirar um trocadinho na feira. Vinte-conto vai dar pra compra a comida da semana”

Bruninho, ainda com saudade da cama e de passinho curto, é tomado no colo de Mariazinha que sorridentemente se apressa à praia.

Como não pensar na diversidade de realidades dos universos paralelos do Recife narradas neste caso fictício… Quem sabe um dia Nicodemos conheça Bruninho e sua contribuição social seja maior que o sorbejo de suas farras… Quem sabe Bruninho não entre nas estatísticas de jovens delinquentes revoltados pelo contexto paupérrimo, e não compre sua arma na feira-do-troca aos 16… Quem sabe nada disso aconteça mas Nicodemos seja assaltado na jaqueira por um pivete armado… Só Deus sabe! 

Plantamos e colhemos o veneno de nossa ignorância! Só espero que este artigo ajude-nos a repensar o contexto social dessa Metrópole, e quanta diferença faria os 160 reais desse abadá diante da inconsciência de amor ao próximo que temos.

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Foto: ÍcaroNSilva
Artigo: Maxwell Fonseca
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NOTA: Esta estória vinculada às foto acima é ficção. Qualquer coincidência de nomes e situações é mera coincidência. Os personagens da estórias são apenas ilustrativos.